Platão (427 a.C.-347 a.C.)Um dos mais importantes filósofos de todos os tempos.
Suas teorias, chamadas de platonismo, concentram-se na distinção de dois mundos: o visível, sensível ou mundo dos reflexos, e o invisível, inteligível ou mundo das ideias.
Autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia em Atenas, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental.
Juntamente com seu mentor, Sócrates, e seu pupilo, Aristóteles, Platão ajudou a construir os alicerces da filosofia natural, da ciência e da filosofia ocidental.
Texto: AlmaSuas teorias, chamadas de platonismo, concentram-se na distinção de dois mundos: o visível, sensível ou mundo dos reflexos, e o invisível, inteligível ou mundo das ideias.
Autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia em Atenas, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental.
Juntamente com seu mentor, Sócrates, e seu pupilo, Aristóteles, Platão ajudou a construir os alicerces da filosofia natural, da ciência e da filosofia ocidental.
"[...] Como natural é que não sejam as almas dos melhores, mas as dos medíocres, que assim se vêem compelidas a errar por lugares que tais, expiando as culpas do seu antigo medo de vida, que foi mau. E assim hão-de errar até que o desejo do elemento corporal, que as segue e acompanha, as faça de novo prenderem-se às cadeias de um corpo; o que, segundo tudo leva a crer, se processa consoante os tipos de vida que cada uma, em concreto, exercitou ...
— A que tipos te referes, Sócrates?
— Por exemplo, aqueles cuja prática constante foi a gula, a incontinência, a embriaguez, sem qualquer espécie de peias, é provável que revistam a forma de burros ou de animais do género, não te parece?
— É, efetivamente, muito provável o que dizes.
— E aqueles que privilegiaram a injustiça, a tirania, a pilhagem, revestirão provavelmente também a forma de lobos, de falcões e de milhafres ... ou dar-lhes-emos um destino diverso deste?
— Estão bem aí, não procures mais — comentou Cebes.
— É portanto óbvio, quanto aos restantes tipos, que cada um deles segue o seu destino, em conformidade com os géneros de vida praticados.
— Óbvio, como não?
— E dentre estes, os mais felizes, os mais bem instalados, serão ainda os que praticaram essas formas populares e sociáveis de virtude, que dão pelo nome de temperança e justiça, ainda
que assentes na força do hábito e não na reflexão filosófica?
— Os mais felizes, em que sentido?
— Porque irão naturalmente parar a espécies sociáveis e cordatas como eles; caso, por exemplo, das abelhas, das vespas e das formigas. Ou, até, voltarão a esta espécie humana, dando, origem a homens de bem.
— É natural.
— Quanto à espécie dos deuses, não será permitido o acesso àquele que não praticou a filosofia e não se vai daqui totalmente purificado, mas somente ao que ama o saber. E eis a razão pela qual, meus caros Símias e Cebes, os filósofos que o são de verdade se abstêm por completo dos prazeres do corpo e lhes opõem resistência em vez de se lhes entregarem: não por temerem a ruína ou a pobreza, como o comum das pessoas, em especial os que amam o dinheiro; nem tão-pouco por recearem o descrédito e a infâmia de uma vida viciosa, como é o caso dos que ambicionam o poder ou a glória, e que, por este motivo, se abstêm dos ditos prazeres.
— Nem tal coisa seria de esperar deles, Sócrates — disse Cebes.
— Claro que não, por Zeus!—corroborou ele. — E por isso mesmo, os homens que, de alguma forma, cuidam da sua alma e não vivem com o pensamento fito no corpo, quando dizem adeus a todo este tipo de prazeres é para seguir um trilho bem diverso daqueles que não sabem aonde vão dar: pois, convictos como estão de que nada devem fazer, que seja contrário à filosofia e à libertação purificadora que neles opera, é na sua direcção que se voltam, seguindo espontaneamente na via por onde ela os conduz ...
— Como, Sócrates?
Vou dizer-to — redarguiu. — Todo aquele que ama o saber conhece por experiência que, quando a filosofia toma conta de uma alma, a vai encontrar prisioneira do seu corpo, totalmente grudada a ele. Vê que, impelida a observar os seres, não em si e por si, mas através desse seu cárcere, paira por isso na mais completa ignorância. Mas mais se dá ainda conta do absurdo de tal prisão: é que ela não tem outra razão de ser senão o desejo do próprio prisioneiro, que é assim levado a colaborar, da maneira mais segura, no seu próprio encarceramento. Ora, como digo, quando a filosofia toma conta de uma alma — e tal é a experiência dos que amam a sabedoria — eis que a reconforta brandamente e empreende libertá-la, demonstrando que tudo o que indaga por meio da vista não passa de ilusão, como ilusório é também o que indague através do ouvido e dos restantes sentidos. E assim a convence a voltar-lhes costas, na medida em que o seu uso não for estritamente necessário, a exorta a isolar-se e a concentrar em si todas as forças, a não se fiar senão dela mesma em tudo o que capte em si e por si através do pensamento, quando toma por objecto a realidade dos seres em si mesmos. Em contrapartida, aquilo que varia ao sabor das circunstâncias e que ela observa por outros meios, não deverá de forma alguma tomá-lo por verdadeiro59: é que coisas como estas pertencem ao mundo do sensível e do visível, ao passo que aquilo que a alma vê por si é do domínio do racional e do invisível. E assim, convicta de que em nada deve opor-se a esta libertação, a alma do verdadeiro filósofo abstém-se, na medida das suas forças, de tudo o que sejam prazeres, desejos, sofrimentos [e receios]: é que se dá conta de que, quando os homens são excessivamente afectados pelo prazer, pelo receio, [pelo sofrimento] ou pelas paixões, o mal que daí advém supera ainda o que qualquer um possa imaginar, a doença, por exemplo, ou a ruína a que as paixões instigam: porque o pior deles todos, o mal extremo, esse, sofrem-no eles sem se dar conta [...]."
Cota:0004426FGA1LIV[DEPÓSITO * EMPRÉSTIMO]
PLATÃO - Fédon. Reimp. da 2ª ed. de 1988. Coimbra : Minerva, 2001. 175 p. ISBN 972-8318-37-5
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— A que tipos te referes, Sócrates?

— Por exemplo, aqueles cuja prática constante foi a gula, a incontinência, a embriaguez, sem qualquer espécie de peias, é provável que revistam a forma de burros ou de animais do género, não te parece?
— É, efetivamente, muito provável o que dizes.
— E aqueles que privilegiaram a injustiça, a tirania, a pilhagem, revestirão provavelmente também a forma de lobos, de falcões e de milhafres ... ou dar-lhes-emos um destino diverso deste?
— Estão bem aí, não procures mais — comentou Cebes.
— É portanto óbvio, quanto aos restantes tipos, que cada um deles segue o seu destino, em conformidade com os géneros de vida praticados.
— Óbvio, como não?
— E dentre estes, os mais felizes, os mais bem instalados, serão ainda os que praticaram essas formas populares e sociáveis de virtude, que dão pelo nome de temperança e justiça, ainda
que assentes na força do hábito e não na reflexão filosófica?
— Os mais felizes, em que sentido?
— Porque irão naturalmente parar a espécies sociáveis e cordatas como eles; caso, por exemplo, das abelhas, das vespas e das formigas. Ou, até, voltarão a esta espécie humana, dando, origem a homens de bem.
— É natural.
— Quanto à espécie dos deuses, não será permitido o acesso àquele que não praticou a filosofia e não se vai daqui totalmente purificado, mas somente ao que ama o saber. E eis a razão pela qual, meus caros Símias e Cebes, os filósofos que o são de verdade se abstêm por completo dos prazeres do corpo e lhes opõem resistência em vez de se lhes entregarem: não por temerem a ruína ou a pobreza, como o comum das pessoas, em especial os que amam o dinheiro; nem tão-pouco por recearem o descrédito e a infâmia de uma vida viciosa, como é o caso dos que ambicionam o poder ou a glória, e que, por este motivo, se abstêm dos ditos prazeres.
— Nem tal coisa seria de esperar deles, Sócrates — disse Cebes.
— Claro que não, por Zeus!—corroborou ele. — E por isso mesmo, os homens que, de alguma forma, cuidam da sua alma e não vivem com o pensamento fito no corpo, quando dizem adeus a todo este tipo de prazeres é para seguir um trilho bem diverso daqueles que não sabem aonde vão dar: pois, convictos como estão de que nada devem fazer, que seja contrário à filosofia e à libertação purificadora que neles opera, é na sua direcção que se voltam, seguindo espontaneamente na via por onde ela os conduz ...
— Como, Sócrates?
Vou dizer-to — redarguiu. — Todo aquele que ama o saber conhece por experiência que, quando a filosofia toma conta de uma alma, a vai encontrar prisioneira do seu corpo, totalmente grudada a ele. Vê que, impelida a observar os seres, não em si e por si, mas através desse seu cárcere, paira por isso na mais completa ignorância. Mas mais se dá ainda conta do absurdo de tal prisão: é que ela não tem outra razão de ser senão o desejo do próprio prisioneiro, que é assim levado a colaborar, da maneira mais segura, no seu próprio encarceramento. Ora, como digo, quando a filosofia toma conta de uma alma — e tal é a experiência dos que amam a sabedoria — eis que a reconforta brandamente e empreende libertá-la, demonstrando que tudo o que indaga por meio da vista não passa de ilusão, como ilusório é também o que indague através do ouvido e dos restantes sentidos. E assim a convence a voltar-lhes costas, na medida em que o seu uso não for estritamente necessário, a exorta a isolar-se e a concentrar em si todas as forças, a não se fiar senão dela mesma em tudo o que capte em si e por si através do pensamento, quando toma por objecto a realidade dos seres em si mesmos. Em contrapartida, aquilo que varia ao sabor das circunstâncias e que ela observa por outros meios, não deverá de forma alguma tomá-lo por verdadeiro59: é que coisas como estas pertencem ao mundo do sensível e do visível, ao passo que aquilo que a alma vê por si é do domínio do racional e do invisível. E assim, convicta de que em nada deve opor-se a esta libertação, a alma do verdadeiro filósofo abstém-se, na medida das suas forças, de tudo o que sejam prazeres, desejos, sofrimentos [e receios]: é que se dá conta de que, quando os homens são excessivamente afectados pelo prazer, pelo receio, [pelo sofrimento] ou pelas paixões, o mal que daí advém supera ainda o que qualquer um possa imaginar, a doença, por exemplo, ou a ruína a que as paixões instigam: porque o pior deles todos, o mal extremo, esse, sofrem-no eles sem se dar conta [...]."
Cota:0004426FGA1LIV[DEPÓSITO * EMPRÉSTIMO]
PLATÃO - Fédon. Reimp. da 2ª ed. de 1988. Coimbra : Minerva, 2001. 175 p. ISBN 972-8318-37-5
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