Associação para a Cooperação Entre os PovosA ACEP constituiu-se no início dos anos 90.
Missão
A ACEP procura arriscar novas abordagens da ação de desenvolvimento e dos modelos operacionais que a deverão servir, a partir de princípios éticos inalienáveis. A ACEP aceita o desafio de se construir quotidianamente com uma cultura democrática, aberta às realidades e às propostas de outros, flexível e eficiente, com uma intervenção que articule a investigação, a reflexão e debate, as ações de cooperação.
Texto:
Ameaças do século XXI
"[...] Vivemos uma época de competição como nunca tivemos no mundo. Lança o desafio de uma competitividade que nós tentamos transformar numa competitividade diferente daquela que o mercado está a suscitar, a ameaça da competição que lança pessoas para o desemprego e que marginaliza grupos que não tenham as condições que o mercado considera de eficiência, ou seja, grupos de chamados deficientes, sejam minorias étnicas, sejam inclusive desigualdade de género, sejam territórios marginalizados, problema que a competição transforma em zonas periféricas, em zonas marginalizadas.
Um dos desafios que muitos de nós nos colocamos, é de como reagir a essa competição feroz, resultante desta globalização e de que maneira nos tornarmos a nós próprios competitivos, no sentido de nos aguentarmos, de fazermos bem aquilo que fazemos, dar qualidade ao nosso trabalho. Acabamos por ser, assim, portadores de uma competitividade enquanto desafio ao poder político, à competição feroz, questão que é capaz de ser interessante partilharmos um pouco melhor. Que sociedade é esta que nós podemos propor como alternativa? Qual é a importância desta competitividade, da qualidade daquilo que nós fazemos comparando com a competitividade que o mercado fala?
Ameaça/desafio da pobreza
Outra ameaça com que estamos a iniciar o século XXI é o agravamento da pobreza, a qual se converte em desafio. A ameaça do agravamento da pobreza e da exclusão social, assumindo novas formas, novas manifestações, resultante das profundas desigualdades sociais com que nós iniciamos este século, agravando as desigualdades já existentes e fazendo-nos recuar uma série de décadas na caminhada que a Humanidade, apesar de tudo, estava a fazer em relação à redução das desigualdades. A exclusão social hoje conhece, de facto, novas expressões, fruto, em grande parte, da competição e que fazem apelo à coesão social, apelo à solidariedade num sentido mais generalista e num sentido de dependência de vida.
Todos nós que aqui estamos claramente nesta luta contra a pobreza e a exclusão social. Seja a pobreza e a exclusão social, seja a pobreza e a exclusão de pessoas, seja a pobreza e a exclusão de territórios, seja a pobreza e a exclusão de todos os seres vivos, não humanos, na natureza. Este desafio da solidariedade e da coesão social também nos une e também nos faz percorrer caminhos que em alguns casos são inovadores e por isso mesmo devíamos partilhar melhor entre nós, para abrirmos novos horizontes nesta luta.
Estas ameaças são autênticas bombas relógio que podem dar cabo da humanidade, qualquer delas. Como aliás está à vista, no que se refere a esta ameaça, quanto à vinda desesperada de pessoas fugindo da pobreza e da exclusão social de países mais pobres e que tendem a situar-se na margem, na margem do Mediterrâneo, por exemplo, na fronteira entre o México e os Estados Unidos, a margem que divide a fronteira entre a Europa Ocidental e a Europa de Leste, situam-se nessa margem, tentando entrar naquilo que eles acham que é o mundo rico.
Ameaça/desafio da destruição da natureza
A terceira grande ameaça é a da destruição da natureza, com várias expressões, tais como as alterações climáticas, o buraco do ozono, a defesa da biodiversidade, a questão da água. E esta terceira ameaça, que por si só também pode perfeitamente destruir a natureza, apela ao desafio da sustentabilidade, ao desafio da gestão correta dos recursos, mas também ao desafio da inter-geracionalidade, ou seja, na relação entre gerações. O desafio de fazermos da natureza não um armazém, mas um parceiro. Obriga-nos, por exemplo, a abandonar a atitude arrogante de antropocentrismo, característico dos últimos 200 anos da História da Humanidade. Para os que estamos aqui, também nós, muitas destas organizações nasceram da constatação dessa necessidade de reencontrar a natureza de maneira nova, não como um armazém de recursos mas como um parceiro ao nosso nível.
Ameaça/desafio da intolerância
A quarta ameaça é a intolerância cultural e religiosa e, portanto, a incapacidade de nos aceitarmos na nossa diversidade. Por isso, o desafio correspondente é exatamente o desafio da diversidade, da construção de uma diversidade que nos enriqueça mutuamente. Claramente, muitos de nós se situam neste desafio, tanto aqueles que trabalham com minorias étnicas como os que têm esta ligação entre povos e entre várias zonas do planeta, procuram fazer a ponte e estabelecer redes.
A primeira nota que gostaria de vos deixar é que nós, uns mais explicitamente do que outros, estamos, de certa maneira, centrados naqueles que são os grandes desafios com que o século XXI se inicia. Isto dá-nos uma responsabilidade muito grande, nomeadamente a responsabilidade de estarmos esclarecidos, nós e aqueles que connosco trabalham, face a estas ameaças e a estes desafios, mas também de lhes respondermos com qualidade e com sucesso. Sermos certeiros nesta luta, porque não vamos ter tempo para falhar, não vamos ter tempo em termos da Humanidade para falharmos estes quatro desafios.
Uma segunda nota é como é que vocês sentem estes quatro desafios nos vossos locais, nos vossos territórios.
Estes quatro desafios apelam a um quinto que é o desafio da boa governação, não no sentido do Banco Mundial, mas na boa governação no sentido de encontrar a resolução destes problemas que seja partilhada, participada, integrada e que aconteça a nível mundial, a nível nacional e a nível local. E isso não acontece neste momento. Faz com que sejamos protagonistas de governações locais, mas está a falhar a governação mundial e a governação nacional nesta direção. Neste sentido, acho muitíssimo importante podermos ser atores e investigadores do que poderá ser a governação global.
Um outro ponto de interesse que encontrei aqui nestas apresentações é que nós todos trabalhamos a partir das margens da sociedade dominante e, por outro lado, tentamos abrir caminhos alternativos, situamo-nos na alternativa, partindo da sociedade civil. Ou seja, não partimos nem dos atores principais que até agora dominavam o protagonismo das sociedades - ou seja as empresas e o Estado ou mesmo aqueles que chegavam próximo desse protagonismo embora não tivessem o protagonismo principal, por exemplo, as centrais sindicais nalguns países - mas, pelo contrário, afirmamos aquele protagonismo outro, que é o da população, o da sociedade civil.
Temos como pontos comuns, por um lado as margens, por outro a sociedade civil e por outro lado as alternativas.
Se eu tivesse que sintetizar as nossas áreas de trabalho diria que são áreas que correspondem em grande parte àqueles desafios: área da cidadania e da emancipação ou do empowerment; área. do desenvolvimento local; área da cooperação para o desenvolvimento; área das minorias étnicas; área do ambiente [...]".
Cota: 0015916FGA3LIV[DEPÓSITO]
ENCONTRO "COESÃO, COERÊNCIA E CIDADANIA NA EUROPA ALARGADA", Lisboa - Coesão, coerência e cidadania na Europa alargada. [1.ª ed.]. Lisboa : Associação para a Cooperação Entre os Povos, 2005. 167 p. ISBN 972-95393-4-0
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